HOMILIA DO SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO – Ano A

Em um mundo onde queremos harmonizar artificialmente tantas coisas, a liturgia deste domingo nos desperta para aquilo que é essencial na nossa vida de discípulos: a harmonia do coração. O convite que nos é feito hoje é o convite para olhar para o interior de nós mesmos e entrar na dinâmica da conversão.

Neste segundo domingo do advento vemos aparecer a figura de João Batista. “A voz daquele que grita no deserto.” João, o profeta que faz a ponte entre o Antigo e o Novo Testamento anuncia aquele que é o Verbo, a Palavra encarnada. E faz um convite: “convertei-vos...” é justamente este convite que ilumina toda a liturgia de hoje. Converter-se é voltar à nossa natureza de origem. É o caminho da comunhão, da unidade, da harmonia. Nenhuma conversão se faz de maneira inconsciente. Precisamos saber o que é preciso converter e trabalhar para isso. O perigo é quando queremos viver esta conversão a partir de nossas próprias forças. Assim fazendo, esquecemos que é o Cristo que tem que agir.

E nós? Nós temos que tornar nossos corações disponíveis para a sua ação. Sabemos que o tempo do advento é o tempo da espera, “toda nossa vida é uma espera”, espera d’Aquele que deve ser o verdadeiro “advento” da nossa história. E esperar o Cristo não significa estar parado. Esperar o Cristo é se pôr a caminho. Não podemos pretender pertencer a Jesus se não estamos em movimento. Por quê? Porque o próprio da conversão é a transformação, o movimento, a mudança. Quando João afirma que “aquele que vem” depois dele “batizará com o Espírito Santo e com fogo”, ele nos introduz neste mistério da conversão que transforma nosso interior, e faz o nosso coração entrar numa harmonia que somente Deus é capaz de nos dar: a harmonia do Amor, porque Deus é amor. E o amor transforma tudo, se nos deixamos amar.

O convite que nos foi feito semana passada para “vigiar” ressoa no que nos é pedido hoje: conversão. Se vigiar é estar atento, essa vigilância, além de nos fazer ver os sinais de Deus, nos conduz também a ver aquilo que precisa ser mudado, crescido e amadurecido em nós, vigiar nos conduz então à conversão porque a contemplação nos conduz à mudança.

Somos convidados a caminhar sob o olhar do Cristo. E nossa vida, muitas vezes dispersa, só encontra seu sentido profundo e sua verdadeira harmonia na caminhada com Ele. Mas para que isso aconteça, não podemos somente ficar esperando que as coisas caiam do céu, precisamos querer, fazer trabalhar a nossa vontade, assim, o trabalho da graça junto com a nossa decisão de seguir, e querer mudar, traz os frutos que necessitamos.

Temos um Deus que “não julga pelas aparências que vê nem decide somente por ouvir dizer”, ele deseja entrar em nosso íntimo, reconstruir o que precisa e transformar profundamente nossa maneira de sentir, olhar e desejar. Para que sintamos seu amor, olhemos sempre com esperança e desejemos sempre aquilo que preenche verdadeiramente nossa vida. E o que preenche nossa vida é o Amor. Este amor que já nos foi dado e que nos conduz à “constância... para que tenhamos firme esperança” e nos transforma profundamente, se assim deixarmos.

Diante desse Amor transformador, somos chamados a responder com generosidade. Como? Trilhando o caminho da acolhida diária do Cristo, assim como dos irmãos. É nessa abertura que compreendemos que a verdadeira transformação não acontece de fora para dentro, mas de dentro para fora: quando permitimos que o Senhor toque e renove o nosso coração, a graça encontra espaço para agir e gerar frutos concretos. Somente assim podemos viver, em nossa vida cotidiana, a “graça da harmonia e da concórdia”, que nasce da presença de Cristo em nós e se irradia para tudo o que somos e fazemos.


Is 11, 1-10; Sl 71; Rm 15, 4-9; Mt 3, 1_12

 

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