HOMILIA DA SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR | ANO A


“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo.”
(Mt 28,20)


🌿 Introdução

Gostaria que revisitássemos alguns momentos de nossa caminhada desde o início deste ano litúrgico: no advento, preparamos o nosso coração para acolher o Cristo com essa promessa do “Emanuel, Deus conosco.” Depois, acompanhamos a missão pública de Jesus até chegar à quaresma, preparando o nosso coração para sua paixão, morte e ressurreição. Aqui, vivenciamos o “amar até o fim” ao qual Jesus nos convida pois “não há maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos.” E em cada uma dessas vivências percebemos que o Senhor nos convidava a alargar o nosso coração, a acolher cada um como irmão e irmã, a olhar além daquilo que podemos enxergar. E o que tudo isso tem a ver com a liturgia de hoje?


☁️ A Promessa do Deus Conosco

Tudo o que contemplamos hoje é ao mesmo tempo um resumo de tudo o que vivemos até aqui e um envio em missão. Particularmente, no evangelho, vemos essa promessa do “Deus conosco” se renovar, assim que a força deste “amor que ama até o fim” se consolidar. Quando Jesus afirma “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo.” Ele nos diz que é o “Deus conosco” que caminha conosco, que está conosco e, ao mesmo tempo, nos manifesta seu amor infinito, que nos acompanha “até o fim.” E isso nos convoca. Nos chama a passar de uma fé confortável que consome aquilo que nos é proposto, a uma fé que se põe em movimento e se torna missionária. Essa é uma das grandes cutucadas que recebemos neste dia de hoje: deixar de ser discípulos consumidores e passar a ser discípulos missionários. E tudo que nos é mostrado no evangelho nos remete a isso.


🌍 Galileia: a Encruzilhada das Nações

Jesus pede aos discípulos para irem para a Galileia. Por quê? Porque ali ele nasceu, cresceu e iniciou a sua missão. Só por isso? Não. Também porque a Galileia era conhecida como a “encruzilhada das nações”, ou seja, ali se encontrava gente de toda a parte. E, antes de Jesus afirmar sua presença com os seus “até o fim”, ele os envia em missão: “ide e fazei discípulos meus todos os povos.” E o lugar no qual os discípulos começaram a conhecer Jesus, torna-se o lugar do início dessa missão nova à qual eles são enviados. Eles precisam ao mesmo tempo alargar os corações, caminhar com confiança e cumprir a missão que Jesus deixou. E tudo começa ali, no lugar da vida cotidiana, onde nossa existência acontece.


🕊️ Entre a Dúvida e a Missão

Entre o envio e a promessa, o Evangelho também nos revela que “ainda assim alguns duvidaram.” Como para nos lembrar que nossas certezas muitas vezes podem ser abaladas pela dúvida, mas a dúvida também faz parte do encontro, da caminhada. E como superá-la? Pela fé que se encarna, que se torna concreta na resposta que damos ao Senhor de não sermos “consumidores da fé”, mas missionários enviados por Ele. Foi exatamente o que os discípulos fizeram. Se na ascensão de Jesus eles tivessem permanecido somente com os olhos voltados para o céu, não teriam sido testemunhas de Jesus, pela missão. E a vinda do Espírito Santo teria sido vã, pois sua vinda é para que os discípulos se tornem testemunhas de Jesus “até os confins da terra”. E isso também vale para nós. A promessa do Espírito Santo é para aqueles que respondem ao “Ide” de Jesus. Precisamos saber viver essa tensão entre ter os olhos voltados para o céu e os pés fincados no chão. Porque nossa vida acontece no agora. E tudo o que Jesus nos prometeu se cumpre na nossa própria Galileia: nossa vida cotidiana, na encruzilhada de nossos encontros. E para entrarmos na dinâmica do Reino de Cristo precisamos ser verdadeiros conosco mesmos e passar de uma vida de “consumidores da fé” para uma relação de discípulos-missionários que se torna concreta no amor verdadeiro aos irmãos e irmãs, ato concreto de testemunho ao qual somos chamados.


 

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