SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA – Ano A

Antes de ser proclamada dogma em 1854, a Imaculada Conceição da Virgem Maria já vivia no coração da Igreja, sustentada pelo “sensus fidei” do povo que, movido pela fé e pelo amor, reconheceu intuitivamente aquilo que a teologia levaria séculos para formular: que Deus preparou Maria de modo único, preservando-a do pecado desde o primeiro instante da sua existência, para que ela pudesse acolher o Salvador.

A liturgia de hoje nos conduz ao início de tudo, ao jardim do Gênesis. Ali, depois do pecado, Deus procura Adão. E Adão responde: “Ouvi a tua voz no jardim e fiquei medo, porque estava nu; e me escondi.” No hebraico, o verbo usado para “tive medo” (va’irá, do verbo yārēʼ) não indica apenas um pavor genérico, mas um sentimento de estar exposto diante da verdade, de estar desamparado diante de algo maior do que si mesmo. É um medo profundamente ligado à vergonha, ao sentir-se revelado, sem defesas. A nudez de Adão não é apenas corporal; ela manifesta a sua fragilidade interior, sua incoerência, sua incapacidade de sustentar o peso da própria escolha.

E o que Adão faz diante disso? O que nós também fazemos tantas vezes: ele se esconde. Ele foge justamente quando mais precisava ser encontrado. Aqui, o texto bíblico toca algo muito humano: quando erramos, quando falhamos, quando a verdade nos pesa, nós fugimos. Fugimos de Deus, fugimos dos outros, fugimos de nós mesmos. Preferimos o arbusto ao encontro. Preferimos o silêncio tenso à palavra que cura. E, como Adão, começamos a distribuir culpas para não assumir aquilo que nos cabe: “A mulher que tu me deste...”; “A serpente me enganou...”. O pecado não é apenas desobediência. O pecado rompe nossa inteireza: fragmenta, dispersa, faz com que nos afastemos de nós mesmos.

Por isso, a segunda leitura é um sopro de esperança, porque nos recorda que fomos escolhidos “antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o olhar de Deus, no amor.” A palavra “santo”, antes de ser moral, é profundamente existencial. “Santo” é o íntegro. Ser santo é ser inteiro, não dividido entre aquilo que somos e aquilo que aparentamos. É viver sem precisar esconder a própria verdade. Ser santo é ter a coragem de deixar Deus olhar nossa nudez interior, ou seja, nossa verdade, sem fugas.

E neste ponto entra Maria, como a grande luz desta festa. Se Adão se esconde quando Deus caminha no jardim, Maria se deixa encontrar quando o anjo entra em sua casa. Se Adão foge da própria verdade, Maria a assume com liberdade. Se Eva se deixa seduzir pela promessa falsa da autonomia, Maria confia na promessa verdadeira de Deus. É impressionante observar a maturidade espiritual da jovem de Nazaré: ela não nega o temor: “Como acontecera isso?” mas não permite que o temor a paralise. Ela entrega. Ela se oferece. Ela se responsabiliza. Maria é aquilo que a humanidade deveria ser: inteira, confiável, aberta ao movimento da graça.

Mas talvez a beleza maior desta solenidade seja perceber que também somos escolhidos. Carregamos fragilidades, quedas e contradições; mas o olhar amoroso que Deus lançou sobre Maria, Ele lança sobre nós. Por isso, hoje, a Palavra nos pede algo muito concreto: parar de se esconder. Entregar a Deus aquela parte mais difícil, aquela que evitamos olhar, aquela que nos causa vergonha ou medo. Deixar que Ele caminhe novamente no “jardim” da nossa vida, não para nos acusar, mas para nos reencontrar. Permitir que o olhar d’Ele, que não humilha, mas cura, nos devolva à inteireza que perdemos. Maria é uma porta aberta que nos convida a entrar na confiança. Que hoje, olhando para a Imaculada, cada um de nós possa murmurar em silêncio, como quem entrega o próprio coração: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra.” E que este “faça-se” permita que Deus nos reconduza ao sonho original da criação: sermos inteiros diante d’Ele, santos no amor, confiantes na graça que não falha.

Gn 3,9-15.20; Sl 97; Ef 1, 3-6.11-12; Lc 1, 26-38

Partager cet article
Repost0
Pour être informé des derniers articles, inscrivez vous :