Homilia 24° domingo do tempo comum | Ano A

 

Continuamos a acompanhar o capítulo 18 de Mateus, no qual Jesus nos fala de como devem ser as relações entre aqueles que fazem parte da comunidade. Hoje, Pedro se aproxima de Jesus com uma pergunta que parece generosa: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21). Por que sete vezes? Porque, para um judeu do primeiro século, o número sete era símbolo da plenitude: do que está completo, do que basta. Ao propor sete, Pedro pensava estar oferecendo o máximo que um coração humano poderia dar. E Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22). Jesus sai da lógica puramente humana e nos introduz na lógica do Reino. O que pode ir além da plenitude que Pedro já havia oferecido? O amor em ato!

A primeira leitura já vinha preparando este terreno: como pode alguém guardar rancor contra o próximo e pedir a Deus a cura das próprias feridas? Como pode alguém recusar misericórdia a um irmão e, ao mesmo tempo, rezar pedindo que os próprios pecados sejam perdoados? (cf. Eclo 28,3-4). Isso nos coloca diante de um paradoxo. Muitas vezes conseguimos manter, lado a lado, uma vida religiosa aparentemente correta, feita de oração, de prática e de participação, e um coração cheio de rancor e mágoa. É bem possível rezar todos os dias e, por dentro, cultivar uma lista de contas a acertar.

É exatamente isso que a parábola de hoje expõe. Um servo cai de joelhos, implora e é perdoado de uma dívida impagável; mal sai da presença do rei, agarra pelo pescoço um companheiro que lhe devia uma quantia insignificante. Jesus nos coloca diante de um perigo que nos ronda de perto: uma religiosidade exterior que exibe uma bela fachada, enquanto o interior está cheio de rancor, murmuração e divisão. Diante do que a liturgia de hoje nos apresenta, podemos nos fazer uma pergunta:

Em quem nos tornamos quando nos sentimos feridos?

A ferida que não é entregue a Deus se transforma numa voz interior que nos condena: “sou sempre tratado assim”, “não valho o suficiente”, “ninguém nunca vai enxergar o que sofri”. É um murmúrio silencioso, que endurece o coração contra si mesmo, uma dureza disfarçada de dor. Esse murmúrio pode se voltar contra nós ou contra o próximo, e fere nos dois casos. Porque a ferida não tratada acaba se tornando palavra que espalha o mal. Torna-se comentário que corrói uma reputação sob o pretexto de “estou só desabafando”. Torna-se crítica repetida em segredo, que nunca chega à pessoa certa, mas circula entre todos os outros. Torna-se tantas outras coisas que separam, dividem e alimentam o rancor e o ódio. A ferida que não é curada, que não se converte, torna-se, cedo ou tarde, veneno espalhado sobre nós mesmos e sobre o próximo. Assim, mesmo sendo agraciados, não sabemos reconhecer a graça recebida, e nos tornamos como o servo da parábola, que recebe o perdão e trata o irmão com perversidade.

Precisamos, então, entrar num caminho de autoconhecimento: saber quem somos e quais são as nossas verdadeiras necessidades. Perceber que nem sempre o problema é o outro. Muitas vezes, somos nós que precisamos de um verdadeiro processo de conversão e mudança. Descobrir as nossas próprias fragilidades e vulnerabilidades, e aprender a nos colocar no lugar do outro, que também carrega as suas lutas, os seus combates, as suas feridas. Desse reconhecimento nasce a compaixão. E a compaixão é uma decisão, uma escolha! Ela é o caminho que nos conduz ao perdão.

O perdão é sinal de pertença a Cristo; é o próprio fundamento da comunidade dos discípulos de Jesus. Uma comunidade que reza, mas não perdoa, repete o gesto do servo da parábola: pede misericórdia e não a distribui. Uma comunidade que aprende a perdoar de verdade torna-se sinal visível de que ali habita Alguém maior do que os seus ressentimentos.

Que tenhamos hoje a coragem de responder à pergunta: em quem nos tornamos quando nos sentimos feridos? Que não nos transformemos em murmúrio, nem contra nós mesmos, nem contra o irmão, mas em compaixão que decide amar e em perdão que decide libertar. Que saibamos olhar primeiro para dentro, com misericórdia, reconhecendo as nossas próprias feridas e durezas, para depois sermos capazes de olhar o próximo com esse mesmo olhar: o olhar de quem já foi perdoado de uma dívida impagável e, por isso, sabe na prática o que significa amar em ato!

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