Homilia do 26° domingo do tempo comum | Ano A

Ez 18,25-28 · Sl 24(25) · Fl 2,1-11 · Mt 21,28-32

“Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.”

Mt 21,31

Não sei quanto a vocês, mas, quando comecei a frequentar a Palavra de Deus, alguns textos me tocaram mais do que outros, e uma das passagens que mais me tocavam era justamente esta: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31).

Se no tempo de Jesus essa palavra pôde chocar, hoje talvez a ouçamos com um ouvido mais ou menos atento. Essa passagem me tocava justamente pela sua força, ao mesmo tempo chocante e profundamente comovente. Porque Jesus está nos dizendo que aqueles que são deixados de lado, rejeitados, julgados, excluídos, considerados como nada, são exatamente os que nos precedem no Reino dos Céus, a nós, que fazemos tudo como deve ser feito. Aqueles que eu quero longe de mim, aqueles que, a meu ver, não merecem o amor, são exatamente esses que me precedem no Reino dos Céus. Aqueles que julguei facilmente, pelas aparências, e pelos quais, por autossuficiência ou por orgulho, me recusei a deixar-me tocar, são exatamente esses que me precedem no Reino dos Céus.

Por meio dessa Palavra, Jesus nos coloca mais uma vez diante da contradição entre o ser e o parecer, ou diante da lógica do “ver para crer”… pois muitas vezes somos tentados a querer ser bem-vistos! Ou a só crer depois de ter visto… enquanto o Senhor nos convida incessantemente a fazer um ato de fé! E a ser, diante d’Ele, nós mesmos! Sem as nossas máscaras, sem os nossos filtros, mas nós mesmos, tal como Ele nos conhece! Para que, fortalecidos pela certeza do seu amor, possamos andar uns com os outros no mesmo caminho de verdade e de sinceridade. No caminho de um amor que levanta o outro e que se deixa levantar pelo outro.

A atitude corajosa de ser si mesmo é uma atitude profundamente espiritual, que nos abre para a bela aventura das relações humanas. E ser si mesmo não é apenas uma atitude que nos permite dizer o que não nos agrada; é a atitude que nos permite entrar numa relação verdadeira. E é somente no coração de uma relação verdadeira que podemos nos revelar, nos entregar e até mesmo dizer “não”, ou ter a simplicidade de voltar atrás quando reconhecemos que erramos.

Uma das perguntas que sempre me faço quando olho para a nossa paróquia é esta:

Que comunidade queremos ser?
Que rosto da Igreja queremos mostrar?

Aquela que diz “sim” e não faz, ou aquela que tem a coragem de se assumir verdadeiramente? Pois a nossa família paroquial só dará fruto na medida em que cada um, pessoalmente, tomar consciência do seu lugar como filho amado, convidado à missão! E essa missão só será fecunda se os nossos olhares estiverem voltados para Cristo e os nossos corações ancorados n’Ele. Porque só assim poderemos olhar o outro tal como ele é e nos mostrar ao outro tal como somos, para crescermos juntos!

Os textos que ouvimos são para nós, nesta caminhada que é a nossa, ao mesmo tempo um convite à conversão, um roteiro para a nossa vida pessoal e comunitária e uma porta aberta para a Esperança de um amor que nos renova. Esse convite à conversão é como uma promessa de vida que Deus nos dá, oferecida por Jesus para nos assegurar de que somos profundamente amados. E é porque somos amados que podemos fazer parte da sua vida! E, pela sua vida, estar unidos uns aos outros, convidados a viver a comunhão e a unidade, reconhecendo a sua presença no coração da nossa vida, para que sejamos a sua presença no coração da vida do mundo!

Que comunidade queremos ser? Que rosto da Igreja queremos mostrar? Quanto a mim, aspiro a que a nossa comunidade seja unida no amor, viva em harmonia e busque a unidade em tudo. Que consideremos os outros mais importantes do que nós mesmos (cf. Fl 2,3). Que deixemos de lado a discórdia, a separação, o desejo de poder e as divisões, para sermos o que Cristo espera de nós: viventes do seu amor, sinais da sua presença. Porque de nada vale seguir a Cristo se o nosso coração não é transformado por Ele!

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