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“Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto.”
Is 55,6
Há algo muito interessante no pensamento do filósofo Emmanuel Levinas: ele afirma que Deus é o “Totalmente Outro”, isto é, aquele que, de certa forma, eu não posso alcançar; e o caminho para alcançá-lo passa necessariamente pela manifestação do rosto do outro, do nosso próximo. Isso nos confia uma grande responsabilidade, porque nos faz entender que Deus passa por nós para chegar ao outro. Mas o cristianismo vem e nos mostra um Deus que se faz “Totalmente Próximo”, isto é, alguém com quem eu posso entrar em relação. Essa noção nos ajuda a compreender que, ao mesmo tempo em que Deus está muito além de mim, Ele se faz próximo por amor. E, por amor, Ele se deixa encontrar. E por quê? Porque Ele é bom, e só quem é bom pode amar verdadeiramente!
Em Jesus, Deus rompe a distância e nos faz entrar num outro modo de relação com Ele. Mas tudo isso se torna estéril se não compreendermos que essa aproximação de Deus é justamente para que possamos ir ao seu encontro e nos deixar transformar, mudar, converter: abandonar o caminho do mal, parar de maquinar injustiças. Se a proximidade com Deus não transforma verdadeiramente o nosso coração, é sinal de que estamos longe dele. Se não nos tornamos melhores, se não nos esforçamos para não julgar, se não lutamos para ser sinal de bondade e de unidade, a nossa proximidade não passa de uma máscara, e não nos deixamos transformar. Temos então a impressão de estar perto, mas, na realidade, estamos longe; e é justamente porque estamos longe que Ele nos convida a procurá-lo enquanto se deixa encontrar (cf. Is 55,6). Não é Ele que se afasta; somos nós que o deixamos. E, muitas vezes, nem percebemos.
É isso que Jesus nos faz perceber na parábola de hoje. Aqueles que fazem de Deus alguém distante, “totalmente outro”, o fazem porque querem que se faça a sua própria vontade, e não a de Deus. E quando Jesus mostra que os trabalhadores da última hora recebem exatamente o mesmo que os da primeira, Ele manifesta que os pensamentos de Deus não são como os pensamentos dos homens (cf. Is 55,8). Deus é justo: Ele “paga” não conforme o mérito, mas conforme a necessidade. E assim se faz próximo. Não por mérito, mas porque necessitamos.
A parábola mostra com clareza o que acontece quando o pensamento do homem pretende ser maior que o de Deus. Quando a lógica de Deus se revela muito diferente da nossa, caímos na tentação do murmúrio e queremos contestar. Esquecemos que, se nós olhamos o mérito, Deus olha a necessidade. Muitas vezes, diante de certas situações, as nossas reações nos arrastam para essa dinâmica negativa: “eu mereço mais”, “eu fiz mais”... E, em vez de alimentar em nós a gratidão, alimentamos a inveja. E assim, mais uma vez, nos distanciamos de Deus.
Se nós olhamos o mérito, Deus olha a necessidade.
Sejamos honestos: quem de nós pode se gloriar de ser o trabalhador da primeira hora? Ninguém! De certa forma, todos nós somos trabalhadores da última hora. Lembrar disso nos coloca num lugar de humildade, porque, se formos verdadeiramente honestos, perceberemos que não somos merecedores de nada, mas necessitados. Necessitados de Deus, que se faz próximo e, fazendo-se próximo, nos coloca diante dos nossos irmãos e irmãs para que sejamos luz, sinal da sua presença. E ser sinal da presença de Deus é deixar-se transformar, é participar da sua bondade sendo bons. Ser sinal da presença de Deus é deixar o caminho do julgamento, da condenação e da injustiça para olhar o próximo como um verdadeiro irmão, que, como cada um de nós, chegou na última hora e recebe a graça necessária para a caminhada.
Deus, o “Totalmente Outro”, fez-se “Totalmente Próximo” para que possamos encontrá-lo e, assim, reconhecer no rosto de cada irmão, mesmo daquele que chega na última hora, o mesmo rosto que Ele, por amor, quis assumir. Não adianta falar da proximidade de Deus se o nosso coração continua longe do irmão. Que essa proximidade nos transforme! Que ela desarme em nós o cálculo do mérito e acenda a gratidão pela graça recebida! Procuremos, então, o Senhor enquanto Ele se deixa encontrar, não como quem cobra o que lhe é devido, mas como quem, sabendo-se necessitado, se alegra ao ver o outro também alcançado pelo mesmo amor.