29 Septembre 2025
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Lázaro à porta: clamor que não podemos ignorar.
Hoje o evangelho nos apresenta uma cena de contraste; dois abismos (um nesta vida, e outro depois da morte) que se fazem entre riqueza e pobreza, entre quem acumula e quem sofre. E cada decisão ou falta dela, tem sua consequência na eternidade.
Na história narrada por Jesus o pobre tem nome: Lázaro, que significa “aquele a quem Deus socorreu”. Ele estava “cheio de feridas, no chão, à porta do rico” esperando “matar a fome com as sobras que caiam da mesa...” Nada recebeu. O rico não o enxergou, e a indiferença se tornou sua sentença silenciosa.
O rico do evangelho poderia ter transformado sua mesa e sua casa em instrumentos de partilha, mas preferiu olhar para si mesmo, ignorando a miséria de Lázaro. Qual foi o seu pecado? Ser rico? Não! O Senhor não nos proíbe de ter o necessário para viver, de ter um certo conforto. O que Ele critica aqui é quando nos tornamos indiferentes ao sofrimento do outro. O erro daquele homem foi a indiferença. Amar a riqueza acima do próximo endurece o coração e fecha os olhos ao sofrimento daquele que precisa. E como nos diz Papa Francisco: “A riqueza não deve ser um fim em si mesmo, mas um recurso para servir aos outros.”
Não nos enganemos: cada um de nós carrega em si um pouco desse rico. Cada vez que não olhamos para aquele que está ao nosso lado com compaixão; cada vez que preferimos criticar; cada vez que escolhemos derrubar em vez de estender a mão; cada vez que ignoramos a necessidade de alguém ou fechamos o coração diante do sofrimento alheio — estamos reproduzindo o mesmo pecado da indiferença.
Domingo passado, encerramos o evangelho com a palavra de Jesus: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” Hoje, vemos na prática o que isso significa quando o dinheiro deixa de ser meio e se torna finalidade, a indiferença domina, e o pecado se revela na negação do amor e da compaixão.
Cada um de nós é chamado a assumir a sua responsabilidade, e a liturgia de hoje convida cada um a crescer e amadurecer na vida espiritual. E o sinal dessa maturidade espiritual é quando nossa vida interior impacta nossas ações, nosso viver com nossos irmãos e irmãs. Mas essa maturidade não se projeta apenas para o futuro: ela se concretiza no agora. O tempo presente é tudo o que temos, e é nele que começa nossa eternidade. Cada gesto de misericórdia, cada pão compartilhado, cada olhar atento ao outro constrói eternidade no presente.
Somos chamados, como discípulos de Cristo, a transformar nosso conforto em serviço. Nossa riqueza em partilha. Nossa indiferença em compaixão. Não há nenhum pobre tão pobre que não possa partilhar, como também não há nenhum rico tão rico que não precise de algo! Também nós podemos criar abismos, também nós podemos nos separar de Deus, achando que estamos próximos. “O céu começa quando abrimos os olhos para o outro”, e o inferno, quando nos “deitamos na cama da indiferença.” Que a expressão da nossa fé não seja apenas palavras, mas gestos concretos de misericórdia que já inauguram o céu em nossa vida. Que não criemos abismos com nossas escolhas, mas pontes que nos levem uns aos outros e, assim, ao próprio Deus.