14 Septembre 2025
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O Olhar da Cruz e a Dinâmica da Confiança
O que vemos quando olhamos para a Cruz? E não estou falando daquilo que vemos com os olhos, mas sim, daquilo que vemos com o coração. Com os olhos, vemos a imagem de um homem crucificado, sinal de sofrimento e angústia. Mas com o coração, vemos o ato mais alto de amor que podemos testemunhar: Deus que se faz homem e entrega sua vida para nos salvar. E vendo isso — esse ato de amor — como vivemos e avançamos em nossa própria vida?
Ao ler a primeira leitura, me perguntei: o que há em comum entre o povo de Israel e nós, hoje? Aquele povo que atravessou o Mar Vermelho, livrou-se das mãos de Faraó, e no meio da travessia… se revolta. Começa a impacientar-se. E a falta de paciência leva à falta de confiança, que produz murmúrios e leva à perda da esperança. Quando Deus para Moises fazer a serpente de bronze, ele revela, num gesto pedagógico que olhar para cima, para o sinal, para a promessa é um convite para reencontrar a fé e a confiança perdidas. A serpente de bronze se torna símbolo dessa volta à confiança. Quantas vezes também nós somos como esse povo. Murmuramos. Questionamos Deus. Esquecemos as suas promessas. Mas nós temos algo muito maior que a serpente de bronze: temos o Cristo.
Em Cristo, a promessa de Deus se encarna. Não há mais separação. Deus assume nossa humanidade. A Cruz, sinal de morte e sofrimento aos olhos humanos, torna-se “santa” porque Jesus muda sua perspectiva e seu sentido: Ele vence a morte. A serpente de bronze lembrava a cura; a Cruz é sinal da vitória da vida! Ela se torna o símbolo de que, quando Cristo toma posse, quando deixamos que Ele conduza, e não caímos na tentação do murmúrio, até as coisas mais dolorosas encontram um sentido profundo. Porque entendemos que a vida terá sempre a última palavra, e não a morte. Voltamos à esperança. E contemplando a cruz de Cristo, podemos então olhar para a nossa vida, e para o mundo. Ora,“Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”. Que olhar temos nós sobre o mundo? Com tudo o que vemos — guerras, injustiças, divisões, dores — somos tentados a olhar com desconfiança, com julgamento, com medo. Mas o olhar de Deus é diferente. Ele olha com misericórdia, com esperança, com amor que salva. Só o olhar amoroso de Deus transforma os corações.
Como discípulos, somos chamados a assumir esse mesmo olhar. Não o olhar que condena, mas o olhar que acolhe. Não o olhar que aponta o erro, mas o olhar que estende a mão. O mundo não será transformado por discursos duros, mas por testemunhos vivos. Por cristãos que, mesmo atravessando seus próprios desertos, não deixam de confiar, de esperar, de amar. Porque sim, também nós atravessamos desertos. Desertos de dúvida, de solidão, de cansaço. Há dias em que tudo parece árido. E nesses momentos, temos duas opções: murmurar ou confiar. O povo de Israel murmurou, perdeu a paciência, esqueceu a promessa. Mas Deus, mesmo assim, ofereceu um sinal de cura.
Hoje, esse sinal é a Cruz. Quando olhamos para ela com o coração, somos convidados a entrar na dinâmica da fé. A cruz não elimina o sofrimento, mas dá sentido a ele. Ela nos ensina que até o maior dos abandonos pode ser lugar de encontro com Deus. Que até a dor pode ser fecunda. Que a vida, e não a morte, terá a última palavra. Que possamos, como discípulos, olhar para a Cruz e aprender com ela a viver com esperança.
Que possamos deixar que Cristo tome a direção, e que, mesmo cansados, avancemos com fé. Porque quem confia, mesmo no deserto, já começou a caminhar rumo à terra prometida. E a nossa terra prometida é a eternidade, conquistada pela ressurreição de Jesus!
Nm 21, 4b-9; Sl 77; Fl 2, 6-11; Jo 3, 13-17