HOMILIA DO PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO – Ano A

Outro dia eu ouvi de alguém: “o eterno está no passado.” Fiquei intrigado porque nossa maneira de compreender a eternidade sempre a projeta para o futuro. Mas o futuro não nos pertence, e nunca nos pertencerá, porque, quando acreditamos ter alcançado o futuro, ele já se tornou presente. E quando o presente passa, e ele passa rápido, torna-se passado. Ou seja: o sentido da vida acontece no agora, no presente que se desdobra diante de nós. Então, aquilo que escolhemos e decidimos hoje, constrói o nosso passado, e assim, o passado é feito de nossos presentes. Mas o que tudo isso tem a ver com o que celebramos hoje?

A liturgia de hoje nos abre ao mistério de Deus que entra no nosso tempo. Ela nos faz recordar o que Ele já realizou, ilumina o que estamos vivendo e abre diante de nós aquilo que ainda esperamos. Que presente e que futuro são esses? Jesus veio, e voltará! Eis as duas realidades que vivemos hoje e vamos atravessar durante todo o tempo do advento.

O que aconteceu no passado alimenta nosso presente e nos coloca numa atitude de espera. E essa espera, longe de ser angustiante ou estéril, torna-se fonte de esperança e de vida. E por quê? Porque embora ela esteja projetada para um futuro, ela deve ser vivida hoje, agora, no nosso presente! A eternidade que esperamos vive-se no agora, porque Cristo já veio; pela sua entrada no tempo humano ele transforma o nosso presente  e nos dá a contemplar um belo horizonte que virá.

Todas a leituras que ouvimos falam dessa realidade. Na primeira leitura, contemplamos a promessa do Messias que convida a se deixar “guiar pela luz do Senhor.” E essa promessa se concretiza em Jesus Cristo. A segunda leitura nos chama ao presente: “é hora de despertar” de vestir “as armas da luz”, ou seja, revestir-se de Cristo. Passado e presente que nos convidam a nos deixar iluminar pela luz que vem daquele que é a Luz!

No Evangelho somos colocados diante da realidade da volta de Jesus. Volta que chegará como uma surpresa, no coração da nossa vida cotidiana. E, em vez de nos amedrontar, essa espera nos convida a viver o agora! E vivê-lo de que maneira? O próprio Jesus nos diz: “ficai atentos”. Ou seja, viver o presente é vigiar: é viver agora o nosso pertencimento a Cristo, encarnar os valores do Evangelho no nosso cotidiano. Jesus não nos convida a viver numa ilusão, como se tudo fosse fácil. Ele não nos pede para fingir o que não existe. É justamente o contrário, Ele nos convida a olhar a realidade tal qual ela é, e a assumirmos com inteligência e responsabilidade.

Assim, “vigiar”, estar atento, é escolher o Cristo, é viver a sua palavra que se declina, sobretudo, na prática da caridade. O julgamento na volta de Cristo será a soma das escolhas conscientes que fizemos. Seguir o convite de Jesus para estar atento é colocá-lo no centro da nossa vida. E o estar com Cristo e em Cristo se traduz em nossa relação com o próximo. Isso não significa ser imprudente e aceitar tudo, mas significa amar de maneira justa e viver a espera praticando o amor fraterno.

Desta maneira, unindo passado e presente, entramos na Esperança que nos conduz à Vida eterna, que começa agora. Mas é estando “conscientes do momento presente” que “acordamos do sono e vivemos como filhos da luz.” O eterno está no passado porque ele é o resultado das escolhas do nosso agora. O que então escolhemos?  E você: o que escolhe agora? Que este tempo do advento nos ajude a escolher o Cristo e que essa escolha se traduza em gestos concretos do cotidiano.

Is 2, 1-5; Sl 121; Rm 13, 11-14a; Mt 24, 37-44

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