HOMILIA PARA A QUARTA-FEIRA DE CINZAS – Ano A

Em francês, a oração da coleta para a Quarta-feira de Cinzas é traduzida de maneira um pouco diferente do português. Em vez de dizer: “para que, auxiliados pela penitência, sejamos fortalecidos no combate contra o espírito do mal”, ela diz: “Concede-nos, Senhor, saber começar santamente, com um dia de jejum, o nosso treino para o combate espiritual.”

Eu gosto muito desta ideia de treino. Porque treinar exige decisão, esforço. Se queremos resultados, exige perseverança. E muitas vezes, recomeço. A Quaresma é exatamente isso: um tempo de decisão, de esforço, de perseverança, e de recomeços.

Mas este treino quaresmal não tem como objetivo uma realização puramente pessoal. Não é um desafio espiritual individual, como quem estabelece metas de desempenho. A Quaresma não é um projeto de desempenho espiritual. É um caminho de conversão do coração. A Quaresma é este “tempo favorável” para nos reconhecermos pecadores, isto é, necessitados da graça de Deus.

Reconhecer-se pecador não é entrar numa culpabilidade, mas assumir a verdade sobre si mesmo: eu não me basto. Eu preciso ser salvo. Por isso o chamado à conversão. Converter-se é voltar-se para Deus, é reorientar a própria vida. E qual é o caminho concreto podemos trilhar para isso? Jesus, no Evangelho de hoje, nos dá três meios concretos, três exercícios: esmola, oração e jejum. Esses três pilares estruturam toda a nossa existência, porque tocam os nossos relacionamentos fundamentais: com os outros, com Deus e com nós mesmos, e até com as coisas.

Dar esmola é sair de nós mesmos. É entrar na relação com o outro que, como eu, também é pobre em algo. A esmola nos treina no amor concreto. Ela nos tira do egoísmo e nos coloca diante do outro. Não é apenas dar algo que sobra, mas aprender a partilhar o que somos e o que temos.

Orar é colocar-se diante de Deus. Diante d’Ele somos quem realmente somos: sem máscaras, sem filtros. Nos reconhecemos necessitados de sua amizade, de sua graça. A oração nos treina na relação. Nos faz sair da superficialidade, nos faz “rasgar o coração”. A oração nos recentra, nos reorienta, nos devolve o eixo.

Jejuar, por sua vez, toca a nossa relação conosco mesmos. Jejuar é o contrário de comer, que é sinal de vida. O jejum é sinal tanto de luto quanto de conversão. Ele nos treina à liberdade. Nos faz reconhecer o próprio limite como princípio de vida.

Percebam como este treino é completo: ele reorganiza nossas relações: com o próximo, com Deus e com nós mesmos. Ele nos desinstala. Ele nos purifica. Ele nos coloca na verdade. E é exatamente nesta verdade que entramos agora, com o rito das cinzas. Elas nos lembram: “Tu és pó e ao pó voltarás.” Elas nos colocam diante do nosso limite radical. Somos frágeis. Somos passageiros. Somos pó. Mas este pó não é desprezado por Deus. Em suas mãos, ele pode ser moldado.

Receber as cinzas é aceitar o próprio limite. É reconhecer-se pecador. É assumir que precisamos da graça. Mas é também um gesto de esperança quando a acolhemos com o firme proposito de “crer no evangelho”. Hoje começamos santamente este treino espiritual. Não confiando na nossa força, mas na graça de Deus. Não buscando uma perfeição exibida, mas uma conversão verdadeira. Que esta Quaresma seja para nós um tempo real de decisão, de esforço, de perseverança e de recomeços. E que, passando pelo pó das cinzas, entrando com coragem neste “treino”, possamos chegar à luz da Ressurreição.

Jl 2, 12-18; Sl 50; 2Cor 5, 20-6,2; Mt 6, 1-6.16-18

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