Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo • Ano C | 2025

Pe. Emmanuel Albuquerque

“Se és o rei… salva-te a ti mesmo.” Que tipo de rei seria tão incompetente a ponto de se deixar assassinar? Não teria ele soldados, pessoas sob suas ordens para salvá-lo? Na cabeça daqueles que crucificavam Jesus, essa poderia ser a pergunta. E, por três vezes, vão provocá-lo: “Se és rei… salva-te a ti mesmo.” Essa provocação lembra uma tentação, como as três tentações que Jesus enfrentou no início de seu ministério público. Da parte desses algozes, era um lembrete: só o poder importa!

Diante dos nossos olhos, vemos todas as expectativas se desmoronarem. Espera-se de um rei que seja “forte, livre, homem ideal e ideal de homem”, e aqui vemos apenas alguém humilhado, escarnecido e crucificado. E cada vez que Jesus recusou salvar a si mesmo, foi para salvar a nós.

Na primeira leitura, vemos a expectativa pelo verdadeiro Rei por meio da unção de Davi; o salmo nos recorda a alegria de estar perto daquele que é a nossa salvação; e a segunda leitura nos lembra que somos herdeiros da vitória de Cristo. Quanto ao Evangelho de hoje, podemos enxergá-lo de várias maneiras: como uma passagem dolorosa, que nos incita à reparação; como um trecho que nos faz contemplar o quanto Cristo sofreu e que pode despertar culpa; ou ainda como um convite, algo que nos provoca a crescer, a mudar, a nos converter cada vez mais.

Hoje, não celebramos um rei que se manifesta com força ou com poder, mas um rei que se entrega em nome do amor. Não é um trono de mármore sobre o qual ele repousa, é a Cruz. Não é uma coroa de diamantes que revela sua realeza, mas uma de espinhos. Não é a violência o sinal de sua liberdade, mas o seu doar-se, o seu servir. E o seu poder? Ele tem apenas um: amar até o fim!

Celebramos um rei que se coloca à altura daqueles que são humilhados, zombados, caçoados. Celebramos um rei que não quis se adequar às expectativas do que os outros queriam que ele fosse, mas que decidiu ir até o fim porque sabia que o objetivo era grandioso.

E, na nossa vida de discípulos e amigos de Jesus, o que essa solenidade nos revela? A nossa vida é uma caminhada que oscila entre a lentidão e a pressa. Às vezes, não nos damos conta do quanto nos perdemos em nossas próprias ilusões, daquilo que achamos que devemos ser ou que gostaríamos de ser, porque nos deixamos conduzir pelo que os outros esperam de nós ou pelas nossas verdades estreitas. Entramos na lógica de escolher sempre o que é mais fácil. Jesus se deixou conduzir pelo amor, pela certeza de que nada vale a pena se não é vivido para o amor e pelo amor, a fim de que nós pudéssemos mudar e nos transformar. Celebrar Cristo Rei do Universo nos impulsiona a nos deixar transformar, como o malfeitor que foi salvo: a decidir que o melhor caminho é o da conversão, que conduz à vida.

Não adianta nada Cristo ser Rei do Universo se ele não reinar em nosso coração e se não decidirmos, de verdade, amar mais, doar-nos mais, crescer mais. Ah, mas a vida é difícil, padre! Sim, ela é. E pode ser esmagadora. Mas o que nos define é aquilo que carregamos dentro de nós, aquilo que alimenta a nossa alma. E, como diz um grande escritor brasileiro, “o que a vida exige da gente é coragem![1] Coragem, como foi exigida de Jesus naquele momento: não para ser maior, mas para elevar; coragem para mostrar que nada vale mais a pena do que o ato de amar: e amar até o fim.

 

[1] João Guimarães Rosa. Grande Sertão: veredas.

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